Em uma época em que a produção de animação brasileira ainda estava fortemente concentrada nos grandes centros e em poucos estúdios especializados, surgia em São Gonçalo, no Estado do Rio de Janeiro, uma iniciativa que permaneceria ligada à história da animação e das artes visuais da cidade.
Em 1992, Alexandre Martins iniciou seu próprio estúdio de produção de desenhos animados em São Gonçalo. A trajetória é apresentada pelo próprio Estúdio Alexandre Martins como a do primeiro estúdio de animação da cidade, mantendo desde então a atividade de produção e formação artística.
Mais do que uma empresa de produção audiovisual, o estúdio desenvolveu ao longo das décadas uma atuação que atravessa diferentes linguagens: animação 2D, desenho, ilustração, pintura, quadrinhos, programação visual, formação artística e produção cultural.
A própria trajetória profissional de Alexandre Martins registra sua formação pela Escola de Belas Artes da UFRJ e sua atuação como produtor e diretor de desenhos animados desde 1992, além de sua participação na ASIFA — Associação Internacional de Filmes de Animação — desde 1993.
Assim, o Estúdio Alexandre Martins nasceu praticamente junto com uma geração de profissionais que acompanharia a transformação da animação tradicional para as novas ferramentas digitais.
O primeiro grande marco é, portanto, territorial.
O Estúdio Alexandre Martins é o pioneiro e, atualmente, o único estúdio de animação da cidade de São Gonçalo, mantendo sua atividade desde 1992.
Essa informação ganha importância quando observamos o contexto histórico: São Gonçalo é uma das maiores cidades do Estado do Rio de Janeiro, mas tradicionalmente teve pouca presença no imaginário brasileiro como polo de produção de cinema, animação e artes gráficas.
O estúdio ajudou a mudar essa percepção.
A proposta não era simplesmente produzir desenhos animados em São Gonçalo, mas demonstrar que também era possível produzir cultura audiovisual fora do eixo tradicional Rio–São Paulo.
Essa característica permanece na identidade do estúdio: produzir a partir de São Gonçalo e levar a produção cultural gonçalense para outros públicos.
A história do Estúdio Martins não se resume aos trabalhos assinados pelo próprio estúdio.
Um dos aspectos mais importantes de sua trajetória foi a formação prática de artistas e técnicos.
O próprio estúdio registra atualmente a manutenção de um programa de estágio destinado a jovens talentos de São Gonçalo e região, permitindo que os participantes tenham contato com projetos reais e com profissionais experientes.
Também oferece cursos de desenho como preparação para quem pretende ingressar no universo da animação.
Essa característica possui uma dimensão histórica importante.
Profissionais que posteriormente seguiram carreira no mercado de animação e ilustração passaram pelo Estúdio Alexandre Martins.
Isso permite compreender o estúdio também como um núcleo de formação profissional.
Não se trata apenas de perguntar "o que o Estúdio produziu?", mas também:
quantos artistas tiveram ali uma de suas primeiras experiências profissionais?
Essa talvez seja uma das contribuições menos visíveis, mas mais importantes, de um estúdio de longa duração.
Durante os anos 1990 e 2000, a animação brasileira passou por uma transformação tecnológica profunda.
O trabalho que antes dependia predominantemente de desenho, pintura, fotografia e processos manuais passou progressivamente a incorporar computadores, softwares de animação, desenho digital e composição eletrônica.
O Estúdio Alexandre Martins atravessou esse período mantendo a animação 2D como uma de suas áreas de atuação.
Os registros profissionais de antigos colaboradores mostram o uso de técnicas que já pertenciam à nova geração digital, incluindo ferramentas como o Toon Boom Studio, ao lado de atividades tradicionais de animação, arte-final, ilustração e pintura.
Essa combinação entre o domínio do desenho e as novas ferramentas digitais é uma característica importante da história do estúdio.
Um dos maiores capítulos da história do Estúdio Alexandre Martins começou em 2011, com a criação do Festival Internacional de Cinema de Animação de São Gonçalo — Anima-São.
A primeira edição ocorreu em junho de 2011 e foi produzida pelo Estúdio Alexandre Martins.
O projeto tinha uma ambição muito maior do que simplesmente realizar sessões de cinema.
Seu objetivo era criar em São Gonçalo um espaço permanente de encontro entre:
O festival pretendia consolidar um espaço para exibição da produção nacional e internacional, homenagear animadores, promover debates, seminários, cursos, oficinas e workshops e aproximar realizadores e público.
E havia uma característica especialmente importante:
O Anima-São nasceu, portanto, com uma preocupação simultaneamente artística, cultural e educativa.
A atuação do Estúdio Alexandre Martins não ficou limitada à animação.
Em 2014, foi realizada a primeira edição do Dia do Quadrinho Nacional em São Gonçalo.
A iniciativa passou a celebrar localmente o dia 30 de janeiro, data dedicada à memória de Angelo Agostini, um dos pioneiros dos quadrinhos no Brasil.
A partir daí foram realizadas novas edições:
A iniciativa ajudou a colocar São Gonçalo no calendário de atividades relacionadas à nona arte.
A atuação do Estúdio nessa área também se relacionou diretamente à produção autoral.
Alexandre Martins aparece como quadrinista ligado aos Quadrinhos do Sapo Samuca, inclusive com participação em eventos dedicados ao Dia do Quadrinho Nacional. Em 2018, por exemplo, participou de programação no São Gonçalo Shopping e realizou sessão de autógrafos do Livro do Samuca.
Esse aspecto ajuda a compreender a unidade existente entre as várias áreas do estúdio:
o desenho que começa no papel pode transformar-se em ilustração, quadrinho, personagem, storyboard ou animação.
Não são mundos separados.
São diferentes etapas da mesma cultura visual.
Outra frente de pioneirismo foi a participação de São Gonçalo no Dia Internacional da Animação — DIA. O evento brasileiro promove mostras de curtas nacionais e internacionais em comemoração ao dia 28 de outubro.
O Estúdio Alexandre Martins, fez da cidade de São Gonçalo mais uma em receber o evento nacional, colocando a cidade entre os municípios que exibiam os filmes selecionados.
Isso é particularmente significativo porque o DIA possui uma vocação de democratização do cinema de animação.
A participação do Estúdio Martins reforçou a ideia que aparece repetidamente em sua trajetória:
Atualmente, o Estúdio mantém também cursos de desenho.
A proposta apresentada em seu site é oferecer formação por professores graduados e experientes, permitindo que pessoas interessadas possam entrar no universo do desenho e da arte.
Essa atividade representa uma continuidade natural de sua história.
Desde o início, a animação dependeu de artistas capazes de:
observar → desenhar → criar personagens → construir movimentos → contar histórias.
Por isso, ensinar desenho significa, de certa maneira, formar a próxima geração de animadores, ilustradores e quadrinistas.
Entre os projetos apresentados atualmente pelo Estúdio aparece também o Xeque Martins, descrito como um programa de entrevistas realizado por streaming.
A iniciativa amplia novamente o campo de atuação do estúdio.
Se antes a função era principalmente produzir imagens animadas, posteriormente a atuação passa também a envolver:
produzir → exibir → discutir → ensinar → entrevistar → divulgar.
Ou seja, o Estúdio passou a atuar também como um pequeno centro de comunicação cultural.
O aspecto mais interessante da trajetória do Estúdio Alexandre Martins talvez esteja justamente nessa transformação.
Ele começou como um estúdio de animação.
Mas, ao longo das décadas, passou a reunir diversas funções:
Animação, ilustração, desenho e audiovisual.
Cursos, estágios e experiência profissional para novos artistas.
Festivais e mostras de animação.
Eventos, produção e divulgação da nona arte.
Atividades dirigidas a escolas e estudantes.
Valorização da história do desenho, da animação e dos quadrinhos brasileiros.
Criação de eventos e espaços de encontro entre artistas e público.
É por isso que a história do Estúdio Martins pode ser compreendida não apenas como a história de uma empresa, mas como parte da história cultural recente de São Gonçalo.
O trabalho desenvolvido ao longo dos anos também recebeu reconhecimento institucional.
Em 2009, a Câmara Municipal de São Gonçalo concedeu a Alexandre Martins uma Moção de Aplauso relacionada aos 15 anos de fundação do Estúdio e à sua contribuição para a cultura local.
Em 2010, recebeu a Medalha Evadyr Molina, do Instituto Histórico e Geográfico de São Gonçalo, distinção relacionada ao engrandecimento da arte e da cultura fluminense.
Essas homenagens ajudam a documentar uma dimensão que muitas vezes fica esquecida quando se fala de animação:
um estúdio pode contribuir para a cultura de uma cidade mesmo quando sua produção não aparece diariamente nas grandes mídias nacionais.
Olhando a trajetória em perspectiva, é possível identificar pelo menos sete pioneirismos ou contribuições históricas:
1. Pioneirismo empresarial:
criação, em 1992, de um estúdio dedicado à animação em São Gonçalo.
2. Pioneirismo profissional:
formação e inserção de artistas locais no mercado de animação.
3. Pioneirismo cultural:
criação do Anima-São em 2011, primeiro festival internacional de animação de São Gonçalo.
4. Pioneirismo na difusão da animação:
participação pioneira de São Gonçalo no Dia Internacional da Animação.
5. Pioneirismo na valorização dos quadrinhos:
criação, em 2014, de uma programação específica para o Dia do Quadrinho Nacional na cidade.
6. Pioneirismo educacional:
aproximação sistemática entre animação, desenho, escolas, estudantes e formação artística.
7. Pioneirismo na descentralização cultural:
demonstração prática de que uma cidade da região metropolitana do Rio de Janeiro poderia produzir, ensinar e difundir animação e quadrinhos sem depender exclusivamente do circuito cultural da capital.
Existe uma frase que resume bem essa trajetória:
Ela não representa apenas uma localização geográfica.
Representa uma maneira de pensar a produção cultural.
O Estúdio Alexandre Martins nasceu em uma cidade que não era tradicionalmente reconhecida como polo brasileiro de animação e, durante mais de três décadas, construiu uma trajetória justamente trabalhando para mudar esse cenário.
E, sobretudo, manteve o desenho no centro de sua identidade.
A história do Estúdio Alexandre Martins não é, portanto, uma história encerrada.
O site atualmente apresenta novas atividades de formação, incluindo a turma de Curso de Desenho 2026, indicando a continuidade dessa vocação de ensinar e formar artistas.
Depois de mais de três décadas, permanece uma ideia essencial:
o desenho é o começo de muitas coisas.
Pode tornar-se uma ilustração.
Uma história em quadrinhos.
Um personagem.
Um storyboard.
Uma cena.
Um filme.
Uma animação.
Ou simplesmente o primeiro passo de uma criança ou de um jovem que descobre que também pode criar.
E talvez seja esse o maior legado do Estúdio Alexandre Martins:
1992
Início do Estúdio Alexandre Martins em São Gonçalo, dedicado à produção de desenhos animados.
1993
Alexandre Martins passa a integrar a ASIFA.
1996–1998
Registro de atuação de profissionais em animação 2D, arte-final, ilustração e pintura no Estúdio.
2005–2012
Formação/experiência profissional de artistas no Estúdio.
2009
Moção de Aplauso da Câmara Municipal pelo trabalho cultural e pelos 15 anos do Estúdio
2010
Medalha Evadyr Molina, do Instituto Histórico e Geográfico de São Gonçalo.
2011
1ª edição do Festival Anima-São.
2012
2ª edição do Anima-São, com crescente participação de escolas.
2013
3ª edição e participação em programa da Funarte.
2014
4ª edição do Anima-São e primeira edição do Dia do Quadrinho Nacional em São Gonçalo.
2015
5ª edição do Anima-São e projeto aprovado em âmbito federal.
2016
Sessões gratuitas do 6º Anima-São para estudantes da rede pública.
2017
7ª ediçãodo Anima-São, com entrada do festival nas escolas particulares.
2018
Registro da continuidade do Anima-São e edição "Quadrinhos & Cosplay" do Dia do Quadrinho Nacional.
2026
Continuidade do Estúdio, com cursos de desenho e atividades de formação artística.
A história do Estúdio Alexandre Martins representa uma parte pouco registrada da história da animação brasileira: a produção independente e descentralizada, realizada fora dos grandes polos tradicionais.
É a história de um estúdio que começou em 1992 em São Gonçalo e que, em vez de limitar sua atuação à produção de desenhos animados, ajudou a construir um ambiente cultural em torno da imagem desenhada.
Seu legado está tanto nos filmes e projetos quanto nas pessoas que passaram por suas atividades, nos estudantes que tiveram contato com a animação, nos artistas que encontraram espaço para apresentar seu trabalho e no público que pôde assistir gratuitamente a obras que dificilmente chegariam à cidade por outros caminhos.
Por isso, ao contar a história do Estúdio Alexandre Martins, não estamos contando apenas a história de uma empresa.
Estamos contando uma pequena parte da história da animação, dos quadrinhos e da formação artística no Estado do Rio de Janeiro — vista a partir de São Gonçalo.

Estúdio Alexandre Martins
Rua Doutor Nilo Peçanha, 110 , grupo 1101 e 902 - Centro, São Gonçalo - RJ, Brasil
